“Sempre tive o sonho de vir para Europa”, afirma Marcelo Boeck. O goleiro do Sporting Clube de Portugal recebeu o LANCENET! em sua casa, em Lisboa, e contou um pouco da vida em Portugal. Falou também do início como profissional no Internacional de Porto Alegre, das conquistas e do sonho de jogar na Seleção Brasileira.
Marcelo, que começou a jogar nas categorias de base do Internacional, está na Europa há quase cinco anos e se diz feliz com a vida na capital portuguesa. O goleiro, que atualmente é o camisa 12 do time verde de Lisboa, busca pouco a pouco impressionar o treinador Ricardo Sá Pinto para, quem sabe, assumir a meta do time, com a provável saída de Rui Patrício, que já é sondado por vários clubes europeus grandes.
O jogador, que foi em 2007 para o Marítimo, time da cidade do Funchal, na Ilha da Madeira, chegou ao Sporting depois de três temporadas no Estádio do Barreiro (do Marítimo). Marcelo foi campeão gaúcho em 2005, e, no ano seguinte, da Libertadores e do Mundial de Clubes, todos com o Internacional, e agora busca conquistar seu primeiro título na Europa. O Sporting que é somente o quinto colocado na Liga Portuguesa, atrás de Braga, Benfica, Porto e Marítimo, está nas quartas de final da Liga Europa e na final da Taça de Portugal.
Confira abaixo a entrevista exclusiva do goleiro para o LANCENET!
Como foi a estreia no profissional do Internacional de Porto Alegre?
Fui para o Internacional em 1998, com 13 anos. Saí de uma cidade de 30 mil habitantes, para uma de um milhão e 500 mil habitantes, desde então já foi uma grande mudança e um grande impacto. Confesso que nos seis primeiros meses pensei em voltar, mas meus pais sempre me incentivaram a continuar. Aos 18 anos, entrei na equipe principal do Inter e no mesmo ano veio a convocação para a Seleção Brasileira Sub-20 e também comecei a trabalhar com o Muricy Ramalho. Com 20 anos fiz minha estreia no Internacional em uma final de Campeonato Gaúcho.
Na sua estreia no Inter, você entrou na partida depois do goleiro titular, André, sofrer uma lesão no braço. Como foi substituir um dos ídolos do Internacional?
Neste final de Campeonato Gaúcho fiquei de fevereiro a março parado devido a uma lesão. Nesta semana, o Clemer estava machucado, o Renan estava na Seleção Sub-20 e só tinha o André. Devido a tudo isso iam chamar um goleiro do júniores, porque eu não estava totalmente recuperado. Lembro que na quarta-feira que antecedia o final de semana da partida, fui ao médico, expliquei a situação a ele e, ao meio-dia, recebi a autorização para fazer o trabalho total. Eram três da tarde, fiz um jogo pela equipe B para mostrar ao Muricy que eu estava apto para jogar. Neste jogo eu estava com apenas 50% de força na minha perna. Mesmo assim, ganhamos de 1 a 0, fiz algumas defesas e então fui convocado para o jogo da final.
Quando o André sofreu a lesão ele era o melhor em campo. Entrei e, no primeiro lance, depois de um chute de um uruguaio, o Edinho, que hoje joga no Fluminense, ele colocou a cabeça na bola e fez o gol contra. Na prorrogação eu fiz uma defesa muito importante. Estava 0 a 0 na prorrogação, Dauri, então artilheiro da competição, entrou cara a cara comigo e fiz a defesa. Depois disso, vencemos a partida e fomos campeões. Lembro que quando chegamos ao vestiário, Muricy disse que eu tinha passado em um vestibular.
Qual foi a sensação de ser campeão da Libertadores da América e do Mundo com 22 anos?
Não só participando dos títulos, mas sendo eu, Renan e mais alguns, todos vindos da base, era algo muito importante. Lembro que, às vezes, reclamávamos de algumas coisas, mas que com 21 e 22 anos fomos campeões da Libertadores e do Mundo, assim já havíamos alcançando o ponto mais alto que um clube brasileiro poderia chegar. Foi algo muito bacana.
Sente muita diferença no futebol quando trocou o Brasil por Portugal?
No Brasil temos mais espaço para jogar, devido à qualidade técnica de cada um. A grama lá não é regada como aqui, o calor é muito mais forte que aqui, mas é importante o jogador vir para a Europa para poder pegar uma cultura tática diferente.
Você chegou ao Marítimo no ano em que ele foi à Liga Europa. Como foi isso?
Foi bom, tinha muitos brasileiros, cerca de 17, mais o técnico, e isso ajudou muito. Neste ano teve um jogo épico contra o Braga que ajudou na nossa ida para a Liga Europa. Foi uma partida em casa, que, no intervalo, estávamos perdendo por 1 a 0 e tínhamos nosso treinador expulso. Voltamos do intervalo e vencemos por 4 a 1 e, depois desse jogo, tínhamos certeza de que iríamos para a competição continental. No último jogo da Liga, tivemos um pênalti contra, eles erraram e tudo indicava que iríamos conseguir. Para o Marítimo, chegar à Liga Europa era um enorme feito.
Pensa que saiu muito cedo do Brasil?
Penso que eu poderia ficar mais, mas hoje vejo que foi importante para amadurecer. Acho que eu poderia ter ficado e penso que se ficasse mais um ano eu jogaria como titular, devido à sequência dos fatos. Mas vejo que foi benéfico. Eu cresci muito como homem e na visão do futebol.
O Brasil sempre foi um celeiro de bons goleiros. Agora, com você no Sporting, todos os três grandes de Portugal (Sporting, Benfica e Porto) possuem um goleiro brasileiro. Como você vê esta confiança dos clubes portugueses em brasileiros nesta posição?
O Taffarel foi o grande precursor disso tudo. Hoje, Helton é o titular e capitão do Porto. Artur mostrou que é um grande goleiro e agora eu, no Sporting. Isso tudo mostrou que, no Brasil, temos uma boa escola de goleiros.
Fala-se sempre que o Rui Patrício vai sair do Sporting. Neste ano o assédio em cima do goleiro é maior devido à boa fase do clube na Liga Europa. Como você vê a possibilidade de assumir a camisa número 1 de um clube do tamanho do Sporting?
Neste primeiro ano me sinto muito bem, pois quando entrei consegui mostrar um pouco da minha qualidade. Como fui o único jogador contratado do mercado interno, acho que isso ajudou na minha adaptação. Tudo isso está sendo muito importante para a minha preparação para uma possivel saída do Patrício. Sabendo da história do Rui Patrício no clube, no momento que eu entro em campo, para mim é o último. Preciso mostrar bom futebol e dar as garantias necessárias.
Você acha que as palavras do jogador do Manchester City, Dzeko, antes da partida contra o Sporting na Liga Europa, deu motivação a mais à equipe?
Sim. Todas as vezes que isso acontece, mesmo que não seja comentada em palestras, isso mexe com os jogadores. Quantas vezes já vimos grandes clubes perderem para clubes médios? Internacional ganhar do Barcelona, ninguém imaginava. Foi um momento infeliz dele, acredito que serviu de lição para ele e para nós.
Como está a adaptação na capital portuguesa?
Sentimos falta da família. Tanto eu quanto minha esposa sentimos falta da nossa família, somos muito apegados a eles. Quando vamos de férias não fazemos mais nada para estar ao lado deles. Funchal (cidade que fica na Ilha da Madeira, em Portugal) foi muito bom. Fizemos amigos, meu filho nasceu lá, foi o início do meu casamento e também minha primeira experiência na Europa. Lisboa, para mim e para minha esposa, tem tudo. É uma cidade muito linda para quem a conhece bem. Acho uma das capitais mais lindas da Europa. Mesmo com a crise, as pessoas nos tratam bem e nos querem bem. Viver em Lisboa está sendo muito bom para toda minha família.
Júlio César, goleiro da Seleção Brasileira, hoje tem 32 anos e logo a vaga ficará em aberto. Sobre uma possível convocação, você quer deixar algum recado ao Mano Menezes?
Eu tenho esse sonho, porque eu já fui para uma seleção de base e sei o que é vestir a Amarelinha. Respeito todas as opções e os goleiros de grande qualidade. Porém, o Mano me conhece, já que foi meu treinador nas categorias de base. Acho que estou chegando em uma idade, em um nível de jogo, que sei o que posso ou não fazer, mas ainda sei que posso evoluir e tomara que eu consiga chegar nesse nível. Muitos me questionam sobre assumir a seleção portuguesa. Sinceramente, não sei. Estou aqui há cinco anos, mas hoje não penso nisso. Hoje eu quero representar meu país, minha nação e o país onde eu aprendi a torcer.
O que achou da pré-lista de Mano para as Olimpíadas? Caberia o Marcelo lá?
Se eu falasse que não caberia o Marcelo estaria sendo contra eu mesmo. O Brasil sempre é favorito. Os jogadores que o Brasil colocar na lista serão de qualidade. Hoje, sendo um jogador de um grande clube, tenho mais cuidado em avaliar, pois sei que o treinador sempre será injusto com alguns e, mesmo assim, nunca vai agradar a todos. Hoje, a mim, cabe torcer, pois não quero entrar no mérito de julgar.
Como é a convivência entre os brasileiros no Sporting?
Nós temos que tomar cuidado para não virar uma “panelinha” dos brasileiros, porque entra a questão da cultura. No Sporting há uma harmonia de pensamentos, mas, naturalmente, a convivência com os brasileiros é mais fácil. Como já conhecia o Evaldo, do Marítimo, o Polga, do Grêmio, e o Xandão e o Renato Neto, que são mais novos, e o Elias, que jogou em um grande clube no Brasil, é algo natural. Nossos armários são próximos e, quando sentamos para uma refeição no clube, as conversas são mais parecidas. Penso que é mais fácil à adaptação graças a isso. No caso do Marat Izmailov, quando chegou da Rússia para Portugal, acho que deve ter sido muito mais difícil a adaptação por ser algo totalmente diferente. E ter alguém com a mesma cultura que a sua ajuda muito.
A que você acha que se deve a grande participação de brasileiros no futebol português?
É uma facilidade maior devido à língua, nossa comida, tudo isso facilita. Tudo passa por aqui para entrar na Europa e essas facilidades de integração tornam o ambiente mais atrativo tanto para o jogador, quanto para o clube.
Vocé é de uma geração de grandes goleiros. Qual foi sua inspiração para escolher esta posição?
Taffarel e depois o André, pois ele seguiu a linha de trabalho do tetracampeão. Porém, confesso que sempre gostei do Peter Schmeichel (ex-goleiro do Sporting e Manchester United), pois ele era de outra escola e sempre gostei de aprender escolas diferentes.
Seu sonho sempre foi de jogar na Europa?
Sempre tive o sonho de vir para a Europa. Lógico que fazer história em um clube como o Internacional seria muito bom. Mas, no Brasil, quando eu ouvia o hino da Liga dos Campeões da Europa, eu sempre sonhava em ouvir aquele hino entrando em campo.
Quem é o jogador que você mais teme em enfrentar?
Messi. O que ele faz com a bola, da maneira que ele joga, se torna uma ameaça. Você não sabe se ele vai chutar forte ou se vai dar um chapéu, ele é uma unanimidade.
Você encontra muita diferença entre os torcedores europeus e os brasileiros?
São maneiras diferentes de lidar. Sabemos que a paixão é a mesma, mas a maneira de se colocar é diferente. A cultura é diferente. Por exemplo, a separação do campo para a torcida é mínima, mas a paixão de ambos é igual.
Acha que o gol do Internacional está bem cuidado?
O Muriel é um goleiro que conheço. É um jogador que chegou ao momento em que precisa jogar. Porque treinamos muito e chega um tempo que nós precisamos jogar para aprender coisas que só acontecem na partida. Neste segundo ano vão acontecer situações que ele achava que poderiam ser diferentes, mas no terceiro ano dele vocês vão ver o grande goleiro que é o Muriel.
Como você vê a questão do jogador Oscar?
Nunca conversei com ele, porque ele chegou depois que eu saí do clube. É um caso muito pessoal. Se fosse minha situação, eu tentaria não deixar tomar o rumo que tomou. Mas como não sei o que aconteceu, prefiro não entrar em um ponto de julgamento porque, na realidade, não sei o que aconteceu.
Tudo indica que o Leandro Damião virá para a Europa na próxima temporada. Na sua opinião, qual o país você acha que seria o melhor para ele?
Ele tem capacidade para o futebol inglês, italiano e alemão. Na Espanha ele até teria espaço, mas vemos que jogadores como Ibrahimovich, que não conseguiu se destacar pela maneira do seu futebol. Acredito que ele até conseguiria destaque por ser novo e poder se adaptar, mas os três primeiros seriam as melhores escolhas.
Para finalizar, sobre a Libertadores da América deste ano. Quem você acha que será o campeão?
Para mim, o Internacional, mas o Santos tem uma grande equipe e possui jogadores que, de um momento para outro, podem fazer mágica no futebol. Acredito que todos os clubes brasileiros possuem condições de ser campeões.
Fonte: Lancenet.com.br

